Se não ou senão?: Aprenda a usar essas expressões

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1. Grafa-se SE NÃO quando o “se” for:
a) conjunção condicional;
b) conjunção integrante;
c) pronome apassivador ou pronome reflexivo; e
d) índice de indeterminação

seguidos do advérbio de negação “não”. Vejamos caso por caso:

a) O “se”, conjunção condicional, e o “não” servindo para tornar a proposição negativa:

Voltarei a falar com você se não for resolvido esse problema. (= caso não seja)

b) O “se”, conjunção integrante, seguido do advérbio de negação “não”:
Os deputados de oposição perguntaram se não haveria um maior reajuste nas contas do governo.

c) O “se”, pronome apassivador ou pronome reflexivo, seguidos de “não”, advérbio de negação:
“- Há coisas que se não dizem.
– Que se não dizem só pela metade; mas já que disse metade, diga tudo.” (Machado de Assis, Dom Casmurro, cap. CXXXVIII [138]).
Observação: O uso que Machado de Assis faz está corretíssimo, ainda que comumente falemos: “que não se dizem”.

d) O “se”, índice de indeterminação, mais o advérbio “não”:
Lugares onde se não vive tranquilamente. (Odilon Soares Leme, Tirando dúvidas de português)
Observação: também aqui normalmente falamos: “Lugares onde não se vive…”.

2. Grafa-se SENÃO quando tal forma for:
a) preposição – com o sentido de “a não ser”, “exceto”, “salvo”:
“Morte, em ti quero agora/ Esquecer que na vida/ Não fiz senão amar.” (Manuel Bandeira, Canção para minha morte, Estrela da vida inteira)

b) conjunção com o sentido de “mas sim, “porém” e “e sim”:
Meu receio não era da prova em si, senão da fria sala de exame e do fiscal que mais parecia um robô programado para matar.

c) substantivo, com o sentido de “defeito”, “erro”, etc. Por ser substantivo, admite-se, se for o caso, flexão de número:
Salvo um senão ou outro, sua apresentação foi bem sucedida.
Devido a vários senões gramaticais, aquele texto ficou bastante comprometido.

3. Grafa-se SENÃO ou SE NÃO:
a) Odilon Soares Leme (em Tirando dúvidas de português, Ática, 1992, p. 33) admite que “depois de uma ordem ou proposição opinativa (que sugira, portanto, uma ordem, recomendação ou suposição) o senão é conjunção, com valor de ‘do contrário’, ‘de outro modo’, ‘quando não'”. Trata-se, pois, segundo o autor, de uma oração condicional da qual se subentende o verbo ou o auxiliar da oração antecedente. Quando, porém, se fizer uma pausa enfática (por meio de vírgula ou reticências), diz Leme, grafar-se-á se não. Eis os exemplos apresentados por ele:
Estude, senão você será reprovado. (= Estude; se não estudar, você será reprovado.)

O autor ressalta ainda que por isso, a respeito deste emprego, o Dicionário Aurélio nota que “se usará se não, virgulando-o, se houver pausa enfática”. Daí, segundo o autor, as duas possibilidades oferecidas pelo dicionarista:

Lute, senão está perdido.
Lute; se não, está perdido.

“Carece discutir alguma coisa,
senão o tempo vira mármore
gelado…” (Drummond apud Leme, p. 34)

“Se a consternasse é que realmente gostava de mim; se não, é que não gostava.” (M. Assis, Dom Casmurro, cap. XIII [13] apud Leme, p. 34).

b) Ainda, segundo o mesmo autor, quando se quer valorizar uma afirmação. Apresenta-se ao leitor uma retificação provável. Senão/ se não equivale a “ou” e “quando não”. E dá os seguintes exemplos:
É muito difícil, senão impossível, prever o resultado.
“… mas há matérias tais que trazem ensinamentos interessantes, senão agradáveis.” (M. Assis, Dom Casmurro, cap. CXIV, p. 126 apud Leme, p. 35).

Para exemplificar o se não, o autor recorre ao Dicionário Aurélio, que se refere a esse caso como “frases onde há alternativa, incerteza, imprecisão, equivalendo o se não, portanto, a ou”.
Comprarei duas estantes se não três. (= ou três)
É rico, se não riquíssimo. (= ou riquíssimo)
Compadeceu a maioria dos convidados, se não todos.

Odilon Soares Leme Leme, em nota final à lição, reconhece que nesses casos fica subentendido o verbo, mas afirma também que a prática de bons escritores mostra que a grafia pode ser tanto senão quanto se não.